segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE SER HUMANO E NATUREZA


Vivemos num Universo onde os vários elementos estão conectados e dependentes. Uma coisa necessita de outra para se manter. A nossa reflexão parte, justamente, desse ponto: da integralidade e interdependência existente entre ser humano e natureza.

Assim como os demais elementos do Universo, o ser humano é um ser interdependente e interligado. Ele necessita de fontes vitais para sobreviver, e tais fontes são encontradas precisamente na sua “casa comum”, no planeta Terra, na natureza.

A natureza fornece aos seres humanos uma infinidade de recursos. Ela concede à humanidade as condições necessárias para a vida. Entretanto, quase não pensamos sobre a nossa relação com o planeta, nem paramos para perceber que só respiramos porque temos o oxigênio que nos envolve; que as plantas realizam o processo de fotossíntese porque liberamos gás carbônico. São detalhes que passam despercebidos, mas que são essenciais para a nossa existência. Não refletimos ainda o quanto é importante a água, a luz solar, as florestas e tantas outras coisas existentes na Terra.

É! O ser humano deixou, ou talvez, não pensou como ser integrado na natureza. Se houvesse meditado sobre tal assunto não teria provocado alguns danos à sua própria “casa”, ou quem sabe teria estabelecido uma relação diferente com a natureza.

A natureza e o ser humano estão, queira ou não, interligados. Um precisa do outro para viver. Se um sofre, o outro também sofre. Mas, detenhamos um pouco mais e pensemos: quando não cuidamos como se deve da vida no planeta, quem mais sofre o ser humano ou a natureza? Os dois são prejudicados, mas é bom frisarmos que nessa relação o efeito maior do descuido recai sobre o próprio ser humano.

Diante da imensidade do Universo, somos apenas um grão de areia, seres muito frágeis. Desse modo, que atitudes nos cabe para que possamos perdurar nesse planeta? Esta é uma pergunta que nos fica. Uma pergunta que pode ser respondida na pratica, com atos de zelo e responsabilidade pela nossa mãe Terra. Pare! Pense! Aja.  

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O QUE FAZ UM HOMEM SER JUSTO? É O MEDO DA PUNIÇÃO OU EXISTE UMA NATUREZA PRÓPRIA DO BEM?


Comentário referente ao texto Anel de Giges

O homem faz parte de um sistema social. Dentro do sistema, ele é levado a obedecer um conjunto de leis. Estas leis foram elaboradas para conduzir da melhor forma a vida em sociedade, evitando assim as injustiças que advêm do não cumprimento delas. E aqui, adentramos na reflexão do texto Anel de Giges de Platão, que nos propõe a questão da justiça. A justiça como bem maior numa comunidade.

Segundo Anel de Giges, a justiça é um acordo mútuo entre as pessoas que buscam preservar-se da injustiça e de praticar a mesma. E aí se encontra o ser humano, porque a justiça o ajuda a comportar de forma coerente frente a sociedade. Desse modo, percebemos, que o que faz o homem justo não é algo próprio dele, mas sim, o jogo de regras estabelecidas no sistema social.

O homem carrega em si aquilo que é próprio da sua natureza: a ambição, o orgulho, a vontade de poder, a bondade, a solidariedade, a justiça e mais. Impelido por esses aspectos, ele é capaz de realizar coisas que o corrompe ou não. No entanto, tratando do episódio do Anel de Giges, percebemos que quando é dado ao ser humano um poder, ele acaba infringido o que consideramos justo e virtuoso.

Nesse sentido, podemos observar que até o homem justo rompe o caminho do bem comum para assumir bens particulares. Enfim, vemos, segundo Anel de Giges, que não existe uma natureza própria para o bem, porque o homem com o poder nas mãos transgride todas as leis para conseguir o que quer.

Notamos ainda, que o ser humano procura viver a justiça não por uma vontade própria, mas pelo medo de ser punido e por querer ser reconhecido como justo, como aquele que preserva esse bem de grande valor.

Por fim, uma das conclusões relacionadas a este texto de Platão é que a justiça é adquirida a partir do estabelecimento de um regulamento e o homem para se fazer justo cumpre determinadas leis visando não ser punido, pois se não houvesse a punição, por si só ele não procuraria o bem coletivo, mas tenderia para aquilo que lhe é mais adequado.

O ANEL DE GIGES


Platão

— Falar a favor da justiça, como sendo superior à injustiça, ainda não o ouvi a ninguém, como é meu desejo — pois desejava ouvir elogiá-Ia em si e por si. Contigo, sobretudo, espero aprender esse elogio. Por isso, vou fazer todos os esforços por exaltar a vida injusta; depois mostrar-te-ei de que maneira quero, por minha vez, ouvir-te censurar a injustiça, e louvar a justiça. Mas vê se te apraz a minha proposta.

— Mais do que tudo — respondi —. Pois de que outro assunto terá mais prazer em falar ou ouvir falar mais vezes uma pessoa sensata?

— Falas à maravilha — disse ele —. Escuta então o que eu disse que iria tratar primeiro: qual a essência e a origem da justiça.

Dizem que uma injustiça é, por natureza um bem, e sofrê-Ia, um mal, mas que ser vítima de injustiça é um mal maior do que o bem que há em cometê-Ia. De maneira que, quando as pessoas praticam ou sofrem injustiças umas das outras, e provam de ambas, lhes parece vantajoso, quando não podem evitar uma coisa ou alcançar a outra, chegar a um acordo mútuo, para não cometerem injustiças nem serem vítimas delas. Daí se originou o estabelecimento de leis e convenções entre elas e a designação de legal e justo para as prescrições da lei. Tal seria a génese e essência da justiça, que se situa a meio caminho entre o maior bem — não pagar a pena das injustiças — e o maior mal — ser incapaz de se vingar de uma injustiça. Estando a justiça colocada entre estes dois extremos, deve, não preitear-se como um bem, mas honrar-se devido à impossibilidade de praticar a injustiça. Uma vez que o que pudesse cometê-Ia e fosse verdadeiramente um homem nunca aceitaria a convenção de não praticar nem sofrer injustiças, pois seria loucura. Aqui tens, ó Sócrates, qual é a natureza da justiça, e qual a sua origem, segundo é voz corrente.

Sentiremos melhor como os que observam a justiça o fazem contra vontade, por impossibilidade de cometerem injustiças, se imaginarmos o caso seguinte. Dêmos o poder de fazer o que quiser a ambos, ao homem justo e ao injusto; depois, vamos atrás deles, para vermos onde a paixão leva cada um. Pois bem! Apanhá-lo-emos, ao justo, a caminhar para a mesma meta que o injusto, devido à ambição, coisa que toda a criatura está por natureza disposta a procurar alcançar como um bem; mas, por convenção, é forçada a respeitar a igualdade. E o poder a que me refiro seria mais ou menos como o seguinte: terem a faculdade que se diz ter sido concedida ao antepassado do Lídio [Giges]. Era ele um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direcção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder.

Se, portanto, houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses. Comportando-se desta maneira, os seus actos em nada difeririam dos do outro, mas ambos levariam o mesmo caminho. E disto se poderá afirmar que é uma grande prova de que ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as. Efectivamente, todos os homens acreditam que lhes é muito mais vantajosa, individualmente, a injustiça do que a justiça. E pensam a verdade, como dirá o defensor desta argumentação. Uma vez que, se alguém que se assenhoreasse de tal poder não quisesse jamais cometer injustiças, nem apropriar-se dos bens alheios, pareceria aos que disso soubessem muito desgraçado e insensato. Contudo, haviam de elogiá-lo em presença uns dos outros, enganando-se reciprocamente, com receio de serem vítimas de alguma injustiça. Assim são, pois, estes factos.

Quanto à escolha, em si, entre as vidas de que estamos a falar, se considerarmos separadamente o homem mais justo e o mais injusto, seremos capazes de julgar correctamente. Caso contrário, não. Qual é então essa separação? É a seguinte: nada tiremos, nem ao injusto em injustiça, nem ao justo em justiça, mas suponhamos que cada um deles é perfeito na sua maneira de viver. Em primeiro lugar, que o injusto faça como os artistas qualificados — como um piloto de primeira ordem, ou um médico, repara no que é impossível e no que é possível fazer com a sua arte, e mete ombros a esta tarefa, mas abandona aquela. E ainda, se vacilar nalgum ponto, é capaz de o corrigir. Assim também o homem injusto deve meter ombros aos seus injustos empreendimentos com correcção, passando despercebido, se quer ser perfeitamente injusto. Em pouca conta deverá ter-se quem for apanhado. Pois o supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser. Dêmos, portanto, ao homem perfeitamente injusto à mais completa injustiça; não lhe tiremos nada, mas deixemos que, ao cometer as maiores injustiças, granjeie para si mesmo a mais excelsa fama de justo, e, se acaso vacilar nalguma coisa, seja capaz de a reparar, por ser suficientemente hábil a falar, para persuadir; e, se for denunciado algum dos seus crimes, que exerça a violência, nos casos em que ela for precisa, por meio da sua coragem e força, ou pelos amigos e riquezas que tenha granjeado. Depois de imaginarmos uma pessoa destas, coloquemos agora mentalmente junto dele um homem justo, simples e generoso, que, segundo as palavras de Ésquilo, não quer parecer bom, mas sê-lo. Tiremos-lhe, pois, essa aparência. Porquanto, se ele parecer justo, terá honrarias e presentes, por aparentar ter essas qualidades. E assim não será evidente se é por causa da justiça, se pelas dádivas e honrarias, que ele é desse modo. Deve pois despojar-se de tudo, excepto a justiça, e deve imaginar-se como situado ao invés do anterior. Que, sem cometer falta alguma, tenha a reputação da máxima injustiça, a fim de ser provado com a pedra de toque em relação à justiça, pela sua recusa a vergar-se ao peso da má fama e suas consequências. Que caminhe inalterável até à morte, parecendo injusto toda a sua vida, mas sendo justo, a fim de que, depois de terem atingido ambos o extremo limite, um da justiça, outro da injustiça, se julgue qual deles foi o mais feliz.

— Céus! Meu caro Gláucon! — exclamei —. Com que vigor te empenhas em limpar e avivar, como se fosse uma estátua, cada um dos dois homens, a fim de os submeter a julgamento!

Platão
Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira
Adaptação de Vítor João Oliveira
Retirado de República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60.

Fonte: http://aartedepensar.com/leit_giges.html